Sexta-feira, 20 de Março de 2009

Recapitulações em Palomas



PARECE PIADA... MAS NÃO É!!!

Por Juremir Machado

Reunião num canto da Câmara de Vereadores de Palomas.
João da Garupa cochicha com seus coleguinhas: - Agora vai. Palomas precisa de espigões. Vamos autorizar a construção de um conjunto residencial de luxo na Ponta do Denílson. Coisa de país desenvolvido. Mas primeiro temos de expulsar o pobrerio dali das proximidades.

- Bueno, com qual argumento? - inquieta-se Tinão.

- Ora, com a lei: a beira do rio não é para moradia.

- Entendi, muito boa essa, depois a gente muda a lei. -

Calma, Tinão. Só depois que a área for vendida.

- Genial, João - entusiasma-se Carvãozinho.

- Assim quem comprar poderá pagar mais barato e depois ganhar muito. O progresso exige investimentos arriscados e visionários.

- Hummm... Aquela área não foi doada pelo poder público? Tendo perdido a função, não deveria voltar a ser pública?

- Bobagem, Aniceto, um dos nossos interventores, gente boa da redentora, eliminou essa exigência, alegando questão de segurança nacional. Não tem pra ninguém.

- E se tiver muita pressão da opinião pública, João?

- A gente recua e pede ao prefeito para vetar.

- Nossa, tu pensas em tudo, João.

- Mas se o prefeito veta, não acaba tudo?

- A gente sugere que ele recomende um referendo.

- E se ele topa?

- A gente derruba o veto.

- E se, de novo, a opinião pública pressionar?

- A gente confirma o veto, aprova antes outros projetos de clubes de futebol, mistura tudo, confunde um pouco e transforma o referendo em consulta popular.

- Qual a diferença, João? Já não me lembro.

- O voto na consulta popular não é obrigatório.

- Mas que argumento usar para cancelar o referendo?

- O preço. Vamos dizer que sai muito caro.

- Nossa, João, tu pensas em tudo mesmo.

- Eu me inspiro em Carlos Lacerda. Uma vez, quando Getúlio se candidatou à Presidência, em 1950, Lacerda saiu-se com esta: "Vargas não deve ser candidato. Se for candidato, não deve ser eleito. Se for eleito, não pode tomar posse. Se tomar posse, não pode governar. Se governar, deve ser pressionado até ser deposto.

- É... Mas ele foi eleito, tomou posse e governou....

- Deu no que deu, não é, Aniceto?

- Que cultura! Que preparação!

- É que eu me preocupo com o futuro de Palomas.

- E o resto da orla, vai continuar igual?

- Não sejas bobo, Aniceto. Onde passa um boi, passa uma boiada. Depois de passar uma cabecinha, vai o resto.

- Hummm... Os ecologistas vão berrar até o fim.

- Deixa que berrem, Carvãozinho, teremos a mídia a nosso favor. A Rede Baita Sol vai fechar com a gente, não é?

- Essa é quente mesmo. Sempre do lado do progresso.

- E se mesmo assim o berreiro for grande demais?

- Ora, Aniceto, nossos visionários vão pressionar o restante da mídia. Todo empresário já foi patrocinador ou será patrocinador um dia. É gente com poder de fogo.

- É, não tem erro, João, é tiro certo.

- Certeiro, Aniceto. Rumo ao futuro grandioso.

- Mas pode demorar. Sabe como é, tudo é lento.

- A gente aprova regime de urgência.

- Agora vai! Precisa mesmo essa consulta popular?

- Vamos ver...

Publicado no Correio do Povo - 16/03/09 - Coluna do Juremir Machado

Sexta-feira, 27 de Fevereiro de 2009

Contratação de professores: Sugestão de Sofia será analisada

A Secretaria Municipal da Administração (SMA) irá consultar a Procuradoria Geral do Município (PGM) para averiguar a possibilidade de acatar a sugestão da vereadora Sofia Cavedon (PT) de chamar, para assumir os contratos emergenciais na Rede de Ensino da Capital, os aprovados no concurso público realizado pela Prefeitura no início do ano.


Conforme Sofia, que se reuniu hoje (27/02) com a secretária adjunta da SMA, Rita de Cássia Eloy, a proposta esbarra na Lei Municipal 7770/96, que exige a realização de processo seletivo para a contratação emergencial. “Solicitamos ao Governo a sensibilidade de perceber o prejuízo que a troca de professores no decorrer do ano letivo pode causar aos alunos, por isso pedimos a Secretária a revogação do processo seletivo e o imediato chamamento dos aprovados no concurso para ocuparem esses cargos”, enfatizou.

A vereadora ficou preocupada com o fato de que o término do processo seletivo está previsto para 20 de março, sendo que o Executivo afirmou que chamará os aprovados em abril. “A realização da contratação de emergência não era para suprir os primeiros dias do ano letivo?”, questiona.

Sofia recorda que, na condição de presidente da Comissão de Educação da Câmara de Vereadores em 2008, por diversas vezes pautou e alertou o governo da necessidade da realização, a tempo, de novo concurso para professores, inclusive aos Secretários de Gestão e Governança à época.

Também participaram do encontro as representantes da Associação dos Trabalhadores em Educação do Município de Porto Alegre (Atempa), Gorete Losada e Isabel de Medeiros. Elas expressaram o receio da categoria de que a contratação emergencial de professores torne-se, a exemplo do que ocorre no Estado, uma rotina. “Isso desqualificaria todo o processo de gestão construído na Rede Municipal de Ensino da Capital”, destacaram.

Sábado, 31 de Janeiro de 2009

Carta Denúncia de perseguição e tentativa de criminalização por defender a autonomia e os direitos das mulheres

Vimos a público denunciar um processo de perseguição e tentativa de criminalizar nossas integrantes e ainda de procurar desacreditar publicamente nossa organização.

Fomos alvo de uma denúncia sob a acusação de fazer apologia ao aborto e facilitação de crime. A denúncia foi feita anonimamente por alguém que participou de uma palestra que Rosângela Talib proferiu na Universidade Federal do Paraná (UFPR), em Curitiba. Essa pessoa, através de e-mail, notificou a promotoria de ! justiça do estado do Paraná, que, por sua vez, acatou a denuncia. A justificativa da denúncia é que a integrante de Católicas, Rosângela Aparecida Talib, teria dito que na organização informamos às mulheres quais profissionais e serviços prestam atendimento seguro.

Esclarecemos, no entanto, que Rosangela Aparecida Talib, a denunciada, coordena um trabalho de sensibilização e capacitação de profissionais e demais pessoas dos setores que atuam no atendimento de mulheres vítimas de violência sexual, visando a contribuir para a ampliação e melhoria dos serviços de aborto legal no país - previsto em lei. Não só ela, como todas nós, de Católicas, quando indagadas pelas mulheres, informamos sobre a legislação e os locais de funcionamento dos serviços de aborto legal.

Além disso, atuamos politicamente, exercendo a nossa cidadania, para que o aborto deixe de ser considerado crime naqueles casos não previstos em lei, e, para que as mulheres, especialmente as pobres, possam ter atendimento nos hospitais públicos, evitando assim que morram em decorrência da prática clandestina e insegura do aborto.

Católicas pelo Direito de Decidir, uma organização não governamental feminista, desde 1993, luta por justiça social, articulada com outras organizações brasileiras, bem como atua para a conquista da autonomia das mulheres.

Lutamos especialmente para garantir o direito de decidir de homens e mulheres sobre a sexualidade e a reprodução. Defendemos a pluralidade e o respeito às expressões religiosas, sem distinção. Defendemos o respeito à condição laica do Estado brasileiro como a única forma de garantir a cidadania de todos e todas.

Atuamos por uma política ampla e efetiva de saúde reprodutiva que garanta os meios efetivos de educação e acesso ao planejamento familiar. Defendemos que a decisão de uma mulher de interromper a gravidez seja respeitada como um direito.

Repudiamos a forma autoritária e inquisitória encadeada por grupos fundamentalistas com o claro propósito de evitar o debate social e realizar verdadeira perseguição às pessoas e organizações que buscam a conquista da liberdade e da emancipação de homens e mulheres.

Denunciamos a existência de um processo de perseguição em curso no Brasil, com o indiciamento de mais de mil mulheres no Mato Grosso do Sul, e com a aprovação na Câmara dos Deputados de uma CPI da inquisição (do aborto), em dezembro de 2008. Esta CPI quer utilizar o Congresso nacional como instrumento de criminalização das mulheres e das organizações que apóiam as lutas por autonomia das mulheres.

Domingo, 18 de Janeiro de 2009

A Encenação do "fico" - De Juremir Machado da Silva

Quarta-feira, 14 de Janeiro de 2009

O ano de 2009 promete: a secretária estadual de Educação, Mariza Abreu, declarou que para o bem geral do povo gaúcho fica no posto. Ufa!
O Rio Grande do Sul não sabe se chora ouse ri. Na dúvida, fará as duas coisas ao mesmo tempo.
Mariza Abreu poderia ter virado um Jânio Quadros, que ameaçou sair para voltar nos braços do povo e acabou desempregado. Virou dom Pedro I. O nosso imperador por empréstimo de bobo não tinha nada. O seu "fico", lançado em 9 de janeiro de 1822, não passou, segundo muitos historiadores, entre os quais o gaúcho Riopardense de Macedo, de uma encenação.
A frase recitada pelo jovem Pedro fazia parte de uma jogada ensaiada: "Se é para o bem de todos e felicidade geral da Nação, estou pronto! Digam ao povo que fico". Ficou e, passada a independência do Brasil, fez tudo errado e da maneira mais autoritária possível. Pedro I ouvia pouco e falava muito. Tratou de se livrar dos que postulavam uma monarquia mais liberal e impôs a sua Constituição.
O "fico" de Pedro I foi dirigido a membros da elite que desejavam a sua permanência no Brasil, contrariando as ordens vindas de Portugal. Esses formadores de opinião repassaram a frase ao povo. José Clemente Pereira, o mesmo que, 20 anos depois daria todas as condições para Caxias esmagar a Revolução Farroupilha, foi quem orquestrou a situação e conduziu a massa. Mariza Abreu disse que só ficaria se a sociedade lhe desse apoio.
Os comentaristas do diário oficial da província vibraram com a sua permanência e juraram que o tal apoio foi dado.
Por quem? Não se viu um só professor, um só aluno, um só pai ou mãe clamando pelo "fico" da mais nova encarnação de dom Pedro I. O apoio capaz de manter a secretária no cargo deve ter vindo das encarnações atuais de José Clemente Pereira.
Afinal, nos tempos que correm,o magistério é o novo vilão da novela. Os professores são a Flora do nosso Pedro I. Se não forem controlados, acabará o déficit zero e o final feliz sonhado pelo governo irá para o exílio. Os atrasados que se imaginam modernos já começaram com o discurso anacrônico da caça às bruxas.
O plano milagroso da nossa Pedro I consiste em aumentar a produtividade do magistério sem lhe aumentar ganhos. Faz sentido. Professor trabalha pouco e ganha muito.
Nada mais fácil do que segurar uma galera sossega da em escolas tranquilas, sempre bem aparelhadas e com todo o tempo do mundo remunerado para preparar as aulas e corrigir os trabalhos em casa. É o que eu sempre digo: professor só cria problema.
Tem ainda a questão dos inativos. O ideal para os administradores modernos é desvincular salários de ativos e inativos. Assim, os aposentados podem chafurdar na miséria e na defesagem salarial sem correções paternalistas.
Quem mandou não terem poupado uma boa parte dos altos proventos auferidos quando estavam em atividade? Nós professores, somos um bando de preguiçosos, bem pagos e combaixa produtividade.
Ameaçamos constantemente o equilíbrio financeiro do Estado. Não damos retorno. Somos investimento a fundo perdido. Quer dizer, não somos investimento. Ainda bem que dona Pedro I vai nos outorgar uma carta de princípios rigorosa e exemplar.
Nisso tudo, descontados os radicalismos, uma coisa é certa: a imprensa régia ficará com Pedro I até o fim.

Escrito por Juremir Machado da Silva em sua coluna no Correio do Povo de 13 de janeiro de 2009, terça-feira, página 3.

Sábado, 17 de Janeiro de 2009

ENTREVISTA: CHICO DE OLIVEIRA

Matéria da Editoria Política da Revista Carta Maior publicada no dia 12/01/2009


"Vargas redefiniu o país na crise de 30; a chance é que o PT faça o mesmo na primeira grande crise da globalização"

Em entrevista à Carta Maior, Chico de Oliveira analisa o que considera ser a primeira grande crise da globalização capitalista. "Estamos diante de algo maior que a própria manifestação financeira da crise; algo que persistirá para além dela e condicionará todos os passos da história neste século", afirma. O sociólogo torce para que o PT tenha coragem e capacidade para ajudar o país a deflagrar um ciclo inédito de investimento pesado na economia. "Algo como criar cinco Embraer's por ano", exemplifica.

Redação - Carta Maior - Data: 06/01/2009

Dona Joventina preconizava para o filho Francisco Maria Cavalcanti de Oliveira uma carreira venturosa no sacerdócio. Chico, porém, era apenas um em uma prole de onze; isso deve ter facilitado a desobediência ao roteiro materno. O desvio do percurso o levaria ao engajamento profano que começou com a adesão ao Partido Socialista, aos 20 anos de idade; mas nem por isso a rota gauche o afastou da leitura dos evangelhos. É tomando emprestado a palavra dos profetas que o sociólogo nascido em 7 de novembro de 1933, em Recife, companheiro de Celso Furtado no início da Sudene, fundador do PT e do PSOL, hoje um analista mordaz de ambos com reflexões que incomodam mas não são ignoradas, resume as esperanças –“talvez fosse melhor dizer a torcida”, retifica— em relação ao papel que a esquerda brasileira, especificamente o PT, poderá jogar diante do que classifica como a “primeira grande crise da globalização capitalista”.
“Aproveitai as riquezas da iniqüidade, aproveitai”, acentua o sociólogo, doutor honoris causa pela USP e pela UFRJ. Chico adiciona à evocação de São Paulo um sentido de engajamento que resume a brecha diante da qual, à moda gramsciana - cético na razão, otimista na ação, torce por um aggiornamento do projeto petista para a sociedade brasileira.
“Naturalmente, todas as outras crises foram globais devido ao peso da centralidade capitalista no processo, mas essa”, observa com entusiasmo intelectual na voz, “é a primeira crise da globalização do capital; uma crise de realização do valor que tem na derrocada financeira sua epiderme mais visível, mas não a essencial”.
O cerne do colapso sistêmico decorreria, no seu entender, da fantástica ampliação da fronteira da mais-valia nos últimos 20 anos. “Oitocentos milhões de pares de braços foram incorporados ao mercado de trabalho mundial com o avanço econômico da China e da Índia”, dimensiona. A riqueza produzida por esse perímetro dilatado da exploração capitalista –“que alia salários miseráveis à tecnologia de ponta”-- agregaria ao sistema “uma usina de extração de mais-valia relativa de proporções inauditas”. Um fluxo incapaz de se realizar nos mercados de origem, “onde é muito baixo o custo de reprodução da mão-de-obra”.
O sociólogo extrai daí a convicção de que se trata de uma crise do modo de produção no apogeu da globalização capitalista. Não apenas uma derrapada na gestão financeira do sistema, como acreditariam analistas da própria esquerda. Se a potencialização da mais-valia gerou sobras de capital na periferia para sustentar o déficit norte-americano –a China tem US$ 1,1 trilhão investido em títulos do Tesouro - e barateou o consumo no coração do império, numa endogamia até certo ponto vitoriosa, por outro lado não elevou os salários de ricos, nem de pobres. Ao contrário, depauperou o mundo do trabalho urbi e orbe.
“A quebradeira imobiliária é um sintoma dessa contradição clássica, amplificada, entre a globalização do valor e a impossibilidade de realizá-lo na mesma escala porque não há poder aquisitivo equivalente, nem na periferia nem no núcleo do sistema”, reafirma.
Chico pede calma ao entusiasmo afoito; não, ele não antevê um horizonte de derrocada final do capitalismo –“não se destrói o capitalismo, o capitalismo se supera”, reporta a Marx.
Mas os dias que correm sinalizariam no seu entender uma inegável e brutal reacomodação de forças em escala planetária; aquilo que, insiste, será periodizado no futuro como a primeira grande crise da globalização capitalista. É aí que enxerga um hiato no hegemon norte-americano. A trinca descortina também uma fresta de esperança política —“torcida”, como ele prefere - em seu ceticismo intelectual. É através dela que Chico contempla a oportunidade crucial para o país, para a esquerda e para o PT –“aproveitai as riquezas da iniqüidade, aproveitai ...”
A urgência norte-americana em lamber as próprias feridas – “disso será feito em boa parte o governo Obama”— inaugura uma janela obrigatória de rediscussão do desenvolvimento brasileiro. É valioso lembrar que o raciocínio parte do autor de um texto clássico da radiografia analítica do desenvolvimento nacional. É de 1975 seu famoso ensaio “Economia brasileira: crítica da razão dualista”. Com ele, e com o golpe de 64 fechou-se o ciclo da crença na existência de dois brasis, um capitalista, outro atrasado, dualidade que legitimaria sonhos reformistas desastrosos ancorados na suposta existência e disposição modernizante de uma burguesia nacional “aliada”.
O hiato de reacomodação capitalista que se abre agora, ao contrário, reservaria à esquerda, no seu entendimento, uma paradoxal possibilidade de repetir a história modernizante , mas não como farsa –“o que seria uma tragédia” - e sim como ousadia e criatividade condensadas em um projeto democrático popular. “Trata-se de recriar um 1930 do século XXI”. A alegoria serve apenas para resumir o torque que se cobra das forças dispostas a superar a crise como requisito obrigatório para derrotar a coalização conservadora liderada pelo PSDB em 2010.
“Na grande crise capitalista de 1930 tivemos uma reordenação do desenvolvimento brasileiro enfiada goela abaixo da plutocracia paulista”, lembra Chico de Oliveira para dar o crédito à visão de estadista de Getúlio Vargas. “Aquele foi um projeto arquiteto por cima; desta vez trata-se de fazer uma reordenação tão profunda,ou maior; mas induzida por baixo, pelas forças sociais da base da sociedade brasileira em nosso tempo”.
O PT, no seu entender, seria o operador desse aggiornamento histórico do desenvolvimento. “É quem dispõe de massa e de liderança, enquanto os demais agrupamentos socialistas constituiriam a ponta de lança instigadora do processo”.
Em defesa provocativa dessa tese, o sociólogo exemplifica cobrando a metamorfose daquilo que já caracterizou, no calor do debate político, como “uma nova classe”: “O PT tem a força sindical; a estrutura sindical tem todos os fundos de pensão sob seu controle”, cutuca. A chance de emancipação do país na atual crise seria uma inusitada demonstração de competência e ousadia política da esquerda na canalização de fundos públicos para deflagrar um ciclo inédito de investimento pesado na economia. “Falo em se criar algo como cinco EMBRAERs por ano; acelerar o crescimento e dar um novo rumo à economia e à sociedade”, entusiasma-se no seu raciocínio.
“Se um estancieiro gaúcho fez isso na crise de 1930 porque uma Dilma, que honestamente só conheço através da má vontade explícita da mídia; ou, quem sabe, um Gabrielli (presidente da Petrobrás), não poderiam ser instrumentalizados para fazê-lo na crise atual?”. A pergunta recebe da mesma voz uma ponderação pausada: “Devemos tratar essa possibilidade com uma discussão ampla e aberta; não oficialista, tampouco sectária, menos ainda cravejada de acusações entre petistas e não petistas.
O que está em jogo é uma reacomodação brutal de forças; se ela devolver o poder aos tucanos aí sim estaremos fritos: eles ficarão aí mais dez anos”.

Leia a seguir trechos da entrevista de Francisco de Oliveira à Carta Maior:

Carta Maior - A crise financeira atual repõe a centralidade do trabalho, ou seja, devolve à esquerda o sujeito histórico que ele acreditava ter se esfarelado na história?
Chico de Oliveira - Na verdade, não concordo que essa seja uma crise financeira; tampouco acho que a sua origem esteja nos mercados financeiros centrais. A meu ver estamos diante de uma crise da globalização do capital. Todas as outras também foram crises globais, claro, devido à centralidade do capitalismo norte-americano. Mas essa crise não floresce exatamente num ponto geográfico; à rigor, se formos localizá-la seria na incorporação da mais-valia gerada na China e na Índia nos últimos vinte anos; novidade esta que influenciou o conjunto da globalização capitalista e redundou no atual colapso; uma crise de realização do valor. O sintoma financeiro é sua manifestação mais evidente, mas não a sua essência.

CM - A essência seria o barateamento da mão-de-obra mundial?
Chico - A essência é a impossibilidade de realizar o valor gerado por ela; ou seja a mais-valia extraída da incorporação adicional de 800 milhões de novos operários baratos ao mercado de trabalho mundial. Isso produziu uma revolução na medida em que dobrou ou triplicou a oferta de mão-de-obra oferecida ao capitalismo, dilatando a fronteira da mais-valia, sem contudo propiciar uma expansão equivalente da capacidade de realizá-la.

CM - Por quê?
Chico - Porque o custo de reprodução de mão-de-obra nas sociedades onde se expande a nova fronteira da mais-valia, casos da China e da Índia, principalmente, é muito baixo, ainda que a exploração esteja aliada à tecnologia de ponta. Estamos diante de uma crise clássica de realização do valor, amplificada; uma crise da globalização capitalista. O colapso das hipotecas nos EUA é a manifestação disso. De um lado, a produção na China e na Índia barateou o consumo norte-americano; propiciou também sobras de capital na periferia para financiar o Tesouro dos EUA. A China sozinha tem mais de US$ 1 trilhão aplicado em papéis do governo Bush. De onde saiu esse dinheiro? Certamente não foi geração espontânea. É mais-valia extraída do operário chinês que não se realiza lá porque o custo de reprodução da mão-de-obra local é baixíssimo.

CM - Mas a crise não marca o esgotamento dessa endogamia China/EUA?
Chico - Ela funcionou bem durante algum tempo e continuará a girar porque é proveitosa aos dois lados. Ao mesmo tempo a engrenagem esfarela o mundo do trabalho urbi e orbe; os assalariados norte-americanos simplesmente não têm fonte de renda para o padrão de consumo que ainda desfrutam; estão devolvendo casas e vão morar em garagens coletivas, dentro dos seus carros. Obama teria que elevar brutalmente o poder aquisitivo dessa gente para contornar a crise. Fará isso? Honestamente, não sei dizer. O fato é que as implicações desse processo devem ser estudadas cuidadosamente; estamos diante de algo maior que a própria manifestação financeira da crise; algo que persistirá para além dela e condicionará todos os passos da história neste século

(NR – CM levantou alguns dados que reforçam as preocupações de Chico de Oliveira: a incorporação ao mercado capitalista da produção chinesa, indiana e de países da antiga União Soviética colocou trabalhadores de todo mundo em concorrência internacional direta pela primeira vez na história; trabalhadores ocidentais tornaram-se minoria num mercado mundial que ganhou 1,2 bilhão de operários adicionais nos últimos 30 anos; 350 milhões de trabalhadores treinados, e mais caros, do Ocidente, responsáveis pela maior parcela da produção global até recentemente, estão sendo desalojados de empregos e salários; das 3 bilhões de pessoas ativas no mercado global hoje, metade ganha menos de US$ 3 por dia.
A China, a nova oficina do mundo, tem um custo/hora do trabalho de US$ 0,60, contra média de US$ 30/h na Alemanha, US$ 21 nos EUA e cerca de US$ 4,50 no Brasil. Resultado: dados compilados pela Comissão Européia revelam que a parcela de riqueza destinada atualmente aos salários é a mais baixa desde 1960 (o primeiro ano com dados conhecidos). Em contrapartida, a riqueza abocanhada pelos detentores do capital financeiro vinha batendo recordes seguidos até o colapso atual. A produtividade ao mesmo tempo não pára de crescer –desde 2001, cresceu 15% nos EUA e saltou em média 8% a 10% ao ano na China. Entre 1990 e 2004, a participação dos produtos chineses no total de bens importados pela AL cresceu de 0,7% para 7,8%. No mesmo período, a fatia dos produtos brasileiros na região subiu de 5,3% para 6,5%).

CM - O que o senhor está dizendo é que a tentativa de equacionar a crise a partir de sua manifestação financeira não basta ?
Chico - É isso. A contribuição de Chesnais à compreensão da dinâmica capitalista foi importante num outro momento porque os marxistas sempre tiveram dificuldade em lidar com a questão financeira. Mas a interpretação chesniana não dá conta da crise atual. É uma crise de realização do valor.

CM - 1930 também foi uma crise de realização do valor e se resolveu...
Chico - Uma crise de realização do valor circunscrita ao território das economias centrais. Ainda assim exigiu um Roosevelt; e uma Guerra mundial para ser contornada. Esse paralelo apenas reafirma a gravidade do que temos diante de nós; e o que temos é uma crise da globalização à 29; o ferramental dos anos 30 não dá conta disso.

CM - O receituário keynesiano?
Chico - As opções keynesianas valiam para uma economia fechada que podia conter a livre movimentação de capitais; hoje você precisaria de um dinheiro mundial para regular a parafernália financeira; socorrer déficits em conta corrente e harmonizar desequilíbrios comerciais etc. O dólar não é isso; o dólar é uma moeda hegemônica, não é o dinheiro único que o instrumenal keynesiano necessitaria para ter eficácia atualmente.

CM - Estamos diante de um longo processo de solavancos e limbo sem redenção...
Chico - Uma crise longa, dura, que exigirá reacomodação brutal de forças e vai impor mudanças em todo o mundo e no Brasil também. Mas não tenhamos ilusão: o capitalismo não chegou ao limite. Tampouco é o fim da associação China/EUA; de algum modo ela prosseguirá porque é proveitosa aos dois lados. Ademais, o capitalismo não se destrói, ele é superado, como o leitor atento de Marx bem sabe.

CM – Que espaço sobra para a periferia do sistema, caso do Brasil, entre outros?
Chico – Estamos emparedados entre a concorrência chinesa e a desordem financeira no coração do capitalismo. A crise nos pega no meio do caminho e, naturalmente, não podemos regredir e adotar um padrão chinês de salários de miséria. Alguns até gostariam, mas não dá, felizmente não dá mais e tentar seria uma calamidade social de proporções incalculáveis.

CM - Qual opção à paralisia, se é que existe uma - e viável?
Chico – Não existiu Vargas em 1930? A opção é uma soma de coragem política e investimento público pesado. Criar algo como cinco EMBRAERs por ano em diferentes setores; promover uma superação do modelo ancorado-o agora em forças sociais da base da sociedade. Carlos Lessa sugeria isso no BNDES, no começo do governo Lula; não deixaram...

CM - Mas o Brasil de Vargas não existe mais...
Chico - Para Getúlio também não foi fácil, mas ele fez. E fez à revelia da plutocracia mais poderosa do país; enfiou seu projeto goela abaixo da burguesia paulista e se firmou como um estadista da nossa história. A elite paulista jamais admitirá, mas ele foi o grande estadista do desenvolvimento nacional.

CM - Haveria espaço para esse salto nas condições do capitalismo do século XXI?
Chico - A crise é tão grave que abre um período de suspensão do hegemon; não sua derrocada, mas um hiato para lamber as próprias feridas. Isso tomará boa parte do tempo e das energias desse Obama, em relação ao qual, diga-se, não compartilho do otimismo de muita gente de esquerda. Mas o fato é que ele estará ocupado e com uma quantidade apreciável de problemas. Abre-se um espaço, portanto. Talvez até mais que isso: haveria uma potencial complementariedade de interesses se tivéssemos aqui um arranque de investimento público pesado. Isso de certa forma repercutiria positivamente no coração da economia norte-americana. Estamos diante de uma fresta histórica: uma suspensão do hegemon e um espaço de complementariedade para remar na mesma direção, o que poderá favorecer os dois lados a sair do buraco...

CM - Internamente a elite talvez não veja as coisas assim, como propriamente complementares, quando se associa crescimento a um arranque pesado de investimento público.

Chico – Nossa burguesia se transformou em gangue. Expoentes nativos são figuras do calibre de um Daniel Dantas ou esse Eike Batista que opera dos dois lados da fronteira boliviana; não se pode contar com protagonistas dessa qualidade para qualquer coisa, menos ainda para uma agenda de desenvolvimento. Não há saída por aí. Mas o Brasil também não teria saído da crise de 30 se Vargas fosse esperar a mão estendida da plutocracia de São Paulo, por exemplo. Ele ocupou o espaço e fez.

CM - Logo...
Chico – Logo precisaria reinventar o PT; um PT com a ousadia de um Kubitschek e de um Vargas; para fazer por baixo o que eles tentaram e fizeram por cima; um arranque do desenvolvimento induzido pela base social para mudar a economia e a sociedade. Cinco EMBRAERs por ano e ponto final.

CM – O senhor acredita nesse aggiornamento do PT?
Chico - Se depender de torcida para que aconteça tem a minha. A lógica de acomodação de forças que a crise mundial impõe é de dimensões tão brutais, tão inauditas que exige da esquerda brasileira um desassombro igualmente inusitado.

CM - E os recursos para esse ciclo de investimentos pesados?
Chico - O PT tem a base sindical e a base sindical tem o controle de todos os fundos de pensão (NR: os fundos de pensão aplicam apenas na dívida pública federal recursos da ordem de R$ 155 bilhões de reais). Então tem recursos para serem remanejados e repactuados com a base trabalhadora; dentro dela o PT desfruta igualmente de massa e representatividade.

CM - Essa é uma agenda para 2010?
Chico - É uma questão delicada para ser tratada num debate aberto; sem oficialismos de uns, nem preconceitos de outros. A história brasileira repete um impasse do desenvolvimento que não pode ser respondido com uma farsa porque seu resultado seria uma tragédia. Dessa vez o que se vislumbra como possível, repito, é fazer por baixo, com bases sociais existentes, e organizações disponíveis, aquilo que nos anos 30 e nos anos 50 se fez por cima: destravar o desenvolvimento e expandir o mercado interno. É preciso tratar isso com cuidado, insisto, sem oficialismos do PT, nem o sectarismo do Psol e do PSTU.

CM – A candidatura de Dilma Roussef pode oferecer a amarração a esse esforço?
Chico - Honestamente não conheço a ministra Dilma, exceto pelo que leio da má vontade explícita da mídia em relação a ela. Torço para que seja aquilo que amigos petistas dizem que é. Ou então, que seja alguém como o Gabrielli, o presidente da Petrobrás, que certamente também sabe o que está em jogo e as variáveis para sair da crise. Trata-se de articular uma coalizão de forças dentro da qual o PT seria o operador porque é quem tem massa e liderança eleitoral; os grupos à esquerda teriam seu papel de ponta-de–lança. O fundamental é ter um debate com muita abertura e sem preconceitos.

CM - Se a crise se agravar há risco de a oposição ganhar terreno e viabilizar uma vitória de Serra?
Chico - Serra antes de ser um personagem político é um caso psiquiátrico. Qual é o seu projeto afinal? É a obsessão pessoal e doentia pelo poder. Diante de uma crise da proporção que temos pela frente, porém, se você não avançar será soterrado por manifestações mórbidas. A pá de cal viria na forma de uma vitória tucana em 2010; aí sim estaríamos todos fritos. Eles ficariam aí por mais dez anos.

Quinta-feira, 11 de Dezembro de 2008

Surpresa e indignação com "CPI do Aborto"

Excelentíssimo Sr. Deputado Arlindo Chinaglia
Presidente da Câmara Federal


A notícia de que a Câmara Federal está prestes a instaurar uma "CPI do Aborto" nos causa surpresa e indignação.

Há poucos meses, na Comissão de Seguridade Social e Família desta Casa, os mesmos parlamentares que ora apresentam o requerimento para instauração desta CPI, furtaram-se em aprofundar o debate acerca do tema e orquestraram a votação que derrotou, naquela Comissão, o Projeto de Lei que propunha a descriminalização do aborto (PL 1.135/91). Já faz alguns meses também, que a justiça do Mato Grosso do Sul vem investigando mais de 1.200 mulheres, acusadas pela prática de aborto ilegal naquele estado.

Que esses fatos devam ser objeto de interesse e ação do Poder Legislativo, não resta dúvida.

Para além das 400 mil mortes ! anuais e dos inúmeros atendimentos realizados pelo SUS em decorrência de abortos mal sucedidos, a criminalização das mulheres, que estão tendo suas vidas devassadas pela ação do Poder Judiciário, constituem sim base material para que o Estado Brasileiro realize uma profunda reflexão sobre o papel que deveria cumprir na vida dessas mulheres.

Poderíamos começar realizando um profundo diagnóstico dos sistemas de saúde pública, educação e previdência, para entender por que a maioria das mulheres brasileiras não tem condições de decidir ou planejar uma gravidez, e para avaliar até onde o Estado tem assumido sua cota de responsabilidade na reprodução da vida, para que as mulheres possam optar pela maternidade sem precisar abrir mão de outros projetos pessoais.
Poderíamos também aprofundar o debate sobre o necessário enfrentamento à desigualdade de gênero e à violência doméstica, que expõem as mulheres à gravidez indesejada.

E, principalmente, deveríamos retomar o princípio da laicidade do Estado, para que o diagnóstico e a solução desse grave problema social não sejam contaminados por convicções morais ou religiosas.

É preciso sim que o Brasil reconheça a existência da prática de aborto em nosso país, mas ao invés de perseguir e condenar as mulheres, é preciso que questione as causas que vieram a configurar essa dura realidade e apresentar uma solução definitiva. A condenação das mulheres que praticaram aborto e o fechamento das clínicas clandestinas só causarão mais mortes.

A criminalização do aborto não é um fato novo na história da humanidade, mas uma constante que caminha junto com a opressão das mulheres, que além de sempre terem recebido tratamento desigual da sociedade, foram alijadas do direito de decidir sobre sua própria vida. Criminalizar a prática do aborto é uma forma de controlar a vida, o corpo e a sexualidade das mulheres.

A maternidade implica muitas mudanças no aspecto físico e emocional da gestante, e em seu projeto de vida naquele momento. Por isso, a gravidez não pode ser imposição, castigo ou obrigação; deve ser uma decisão da mulher.

Há tempos exigimos que as mulheres tenham atendimento integral à sua saúde. A interrupção de uma gravidez é uma circunstância altamente desconfortável e, muitas vezes, traumática para as mulheres.

Defender a legalização do aborto não significa, portanto, que as mulheres pretendam recorrer à sua prática como método contraceptivo. Trata-se de combinar a legalização do aborto com a ampliação do acesso das mulheres à informação, aos métodos contraceptivos e de criar condições para que elas negociem o uso de preservativos com seus companheiros de forma tranqüila, o que, muitas vezes, não ocorre. A interrupção da gravidez indesejada deve ser o último recurso. Em diversos países onde houve a legalização, os números provam que os casos de aborto não aumentam por conta da situação de legalidade.

Estamos falando, aqui, de um mecanismo de direito de liberdade da mulher sobre seu próprio corpo. Nossa vida está em constante risco pelo fato fundamental de sermos mulheres. Trata-se de construir um mundo de igualdade, o que não é possível enquanto existir tantas mulheres trabalhadoras, desempregadas, pobres, negras, jovens morrendo ou sendo presas por não terem direito de decidir sobre seus próprios corpos e seu destino.

A criminalização de um assunto que levanta questões tão polêmicas leva a um tipo de autoritarismo e fundamentalismo que não fazem bem a uma sociedade democrática e pluralista. Enquanto o mundo discute a questão do aborto sob a ótica civilizatória e democrática, o Parlamento brasileiro discuti-lo sob a ótica criminal, através de uma CPI, seria um retrocesso inaceitável a! pós 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos e 20 anos de Constituição Cidadã no Brasil.

Por isso, nós, mulheres trabalhadoras, rechaçamos com veemência a proposta de instauração desta CPI e reafirmamos nosso compromisso de luta pela legalização do aborto, em defesa de uma vida mais digna e de um mundo mais justo para todas as mulheres.

São Paulo, 11 de dezembro de 2008

SECRETARIA NACIONAL SOBRE A MULHER TRABALHADORA DA CUT

Segunda-feira, 8 de Dezembro de 2008

Após assassinatos, quilombolas pedem proteção à PF

O assassinato de duas lideranças quilombolas na Comunidade Remanescente de Quilombo dos Alpes (bairro do Glória, Porto Alegre) mobilizou os movimentos negro e quilombola a exigir a presença do Estado na área e a proteção da Polícia Federal, a quem, por lei, compete a segurança do quilombo.


No dia quatro de dezembro, por volta de 13h30, Joelma da Silva Ellias (Jô, 36 anos), diretora de eventos e membro do conselho fiscal da Associação do Quilombo dos Alpes, e Valmir da Silva Ellias (Guinho, 31 anos), vice-presidente da Associação do Quilombo dos Alpes, foram mortos. A presidente da Associação dos Moradores do Quilombo, Rosangela da Silva Ellias (Janja), também foi vítima da violência, mas conseguiu sobreviver. O ataque ocorreu dentro do quilombo.

Segundo a comunidade, o assassino Pedro Paulo Back, conhecido por Alemão, morava na área do quilombo e já algum tempo vinha ameaçando as lideranças. No domingo anterior (30/11) ele havia disparado diversos tiros contra comunidade, afirmando: "O que esta negrada está pensando? Vou matar esta negrada". Diante da ameaça, a presidente da Associação denunciou o fato ao INCRA que, por sua vez pediu que a comunidade procurasse o Ministério Público Federal.

Embora a comunidade tenha tomado as devidas providências legais, não houve por parte do Estado nenhuma ação em defesa e proteção do quilombo. Hoje, as organizações e movimentos sociais sensíveis à causa fizeram um protesto em frente à sede da Polícia Civil, denunciando a negligência das três esferas de poder e exigindo a busca pelo assassino. Também iriam à Policia Federal para solicitar o acompanhamento do caso.

No dia 9 de dezembro, às 19h, haverá uma missa no Quilombo dos Alpes em homenagem às lideranças assassinadas. Na quinta-feira, às 10h, acontece uma audiência pública na Câmara de Vereadores de Porto Alegre para discutir o caso.

Quilombos: violência e especulação imobiliária Segundo a Federação das Associações Quilombolas do Rio Grande do Sul, “Os conflitos no quilombo dos Alpes vêm ocorrendo sistematicamente desde que a comunidade se auto declarou quilombola”. A Comunidade Remanescente de Quilombo dos Alpes foi fundada por Edwirges Francisca Garcia - avó da atual presidente da associação de moradores - há mais de cem anos, quando fugia da escravidão.

Embora fosse na época uma região afastada de Porto Alegre, a cidade alcançou, tornando-o um quilombo urbano, que agora integra o bairro Glória. A partir de Janeiro de 2005, a comunidade se auto declarou quilombo e foi certificada pela União através da Fundação Cultural Palmares, em cumprimento ao Art. 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias: “aos remanescentes das comunidades dos quilombos que estejam ocupando suas terras é reconhecida a propriedade definitiva, devendo o Estado emitir-lhes os títulos respectivos”.

Desde então, as oitenta famílias quilombolas passaram a ter sob a sua posse uma grande área de terra de, segundo indicação da própria comunidade, aproximadamente 142 hectares, alvo constante dos posseiros e especuladores.

Segunda-feira, 1 de Dezembro de 2008

SOS Santa Catarina

A Câmara Municipal de Porto Alegre lançou a Campanha de Solidariedade às vítimas da chuva em Santa Catarina.


Na portaria do andar térreo do Legislativo, na Avenida Loureiro da Silva, 255, foi instalado um posto de coleta para roupas e alimentos não-perecíveis. Também serão recolhidos donativos no quiosque da Câmara Municipal localizado no Mercado Público da Capital.

A tragédia em Santa Catarina já provocou 114 mortes. 19 pessoas continuam desaparecidas. Desalojados mais de 27 mil e mais de 51 mil estão desabrigados.

Terça-feira, 25 de Novembro de 2008

Viva o Pilla!!!

Mestre Olívio Dutra ainda pegou o saquinho plástico do interior da urna e sacudiu-o, com vigor respeitosamente adequado, para que todas as cinzas se despreendessem nas águas do Guaíba. Todos então voltaram-se para o interior do trapiche para dividir a emoção coletiva cobrindo de abraços Malu e Angelo depositários dos cumprimentos finais do tributo que encerrou justo quando esposa e filho de Pilla Vares derramaram seus restos mortais no Guaíba enquanto mais de 100 pessoas afirmavam: Pilla presente, aqui, hoje, sempre!Uma forma de dizer: - Pilla nós estamos aqui, lembrando de ti.
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Neste dia 20 de novembro, quinta-feira como as quintas-feiras em que a confraria do Pilla costuma se reunir ao meio dia no restaurante Copacabana não será só uma cadeira que ficará eternamente desocupada na mesa, marcando o vazio que ele deixou, também em uma quinta-feira (09 de outubro), aos 68 anos, golpeado por insuficiência respiratória, agravada pelos sobressaltos de uma pneumonia.

Luiz Paulo Pilla Vares, jornalista, escritor, político, ateu, carnavalesco, colorado, porto alegrense, intelectual, ex-secretário deCultura de Porto Alegre e do Rio Grande do Sul deixou muitas saudades em muita gente, como se revelou no Tributo ao Pilla Vares, realizado no Café da Usina do Gasômetro,onde acorreram, alertados por um convite de autoria do Pepo, com uma caricatura assinada por Edgar Vasques, parentes, amigos, colegas, conhecidos, admiradores do intelectual que Dilma Rousseff, a ministra, alcunhou de "o doce rebelde".
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Por volta das 18h chegaram painéis imensos, com montagens de fotografias feita pelo Ibanez Lemos, com imagens do arquivo pessoal do Pilla, a comissão organizadora do ato, Sonia Roesler, Maria Lucia Carneiro Pinto (a Malu do Pilla),Jeferson Miola,.Márcia Schuler e Fátima Baierle, todos se derreteram em sorrisos de alegria e saudade.
As fotografias mostram Pilla se movendo ao lado de Lula, Tarso, Olívio, Maria do Rosário, Miguel Rossetto, Raul Pont, Adão Villaverde, Clovis Ilgenfritz, Estilac Xavier, Adeli Sell, meninos e senhores nos retratos todos protagonistas da história política do RS nos últimos anos, em meio à maré de bandeiras vermelhas ou abrindo caminhadas, de braços dados com senhores barbudos e bigodudos, líderes do PT vestindo sobretudos elegantes.
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O filho Angelo narrou com orgulho que uma das heranças paternas mais valiosas foi a paixão pelo cinema. O primeiro filme que viu ao lado do pai foi Guerra nas Estrelas, quando ele não tinha mais do que quatro ou cinco anos de idade. Indiferente à eventual falta decompreensão do pequenino, Pilla se emocionou frente aos vilões e recomendou: - Veja, meu filho, estes são os fascistas...! E este era Pilla, meu pai -resumiu o Angelo.
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Malu contou que o marido amado amava Porto Alegre e adorava demais a Usina. "O Pilla sempre pediu para ser cremado e que não ficasse preso em um lugar - ele era assim... O lugar foi escolhido, e bem escolhido, pela Suzana, irmã do Pilla. A Usina representou um sonho para ele. Um equipamento cultural onde as pessoas pudessem entrar de bermuda, chinelo de dedo, tomando chimarrão. Onde as crianças pudessem tocar nos objetos e asfamílias ficassem tranqüilas. O Guaíba, ele amava demais. Ainda mais na volta da Usina, onde costumávamos namorar e tomar mate na tardinha vendo o pôr do sol. Então casou a lembrança da Suzana com as coisas que fazíamos e amávamos juntos".
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Malu agradeceu a ajuda e a solidariedade de todos que contribuiram para o tributo. E vislumbrou, espalhados pelo café lotado e na ala externa no andar superior da Usina, onde sentava-se dona Judite Dutra, o deputado federal Tarciso Zimmermann, o deputado estadual Raul Pont, o ex-deputado Estilac Xavier, os vereadores Sofia Cavedon, Guillherme Barbosa e Marcelo Danéris. Zeca Moraes, Mario Pedro Victória Eliana Didu, sobrinhos e sobrinhas do Pilla, Leandro Boroli, Sirlene Vieira, o advogado do Pilla João Nascimento mais a Iara e a Daniela Nascimento esposa e filha ex - vizinhos de infância, Domingos e Terezinha Toledo e Mársia Sulzbacher, Fábio Duarte Fernandes, Hamilton Braga, Calino Pacheco Filho, Udo Mohr, Maturino Luz, Luiz Fernando Cardona, Ana Clara Facin, Maria Anunciação Sciezzkowsk, Rosa Mosna, Luiz Alberto Pires, Carlos Roberto Winckler, Jussélia Lima, Gerson, João Menine, Clara Zitkoski, Rossana Silveira, Odete Breolin, Stela Pastore, Ida Costa, Flávio Arend, Jaime Rodrigues, Eunica Oliveira, Emílio Chagas, Emílio Fernandes, João Pedro Fernandes, Maria Nazaré Almeida,Rogério Corres, Marcelo Branco, João Carneiro, Arfio Mazzei, Leonardo Soll (dentista do Pilla), Maria Eulália Nogueira,Délcio Machado Maria Eulália Nascimento, Baiard Broker, Sônia Pilla, Wanderlene Cristina, Rafael Baião, Paulo Ricardo Baiano, Rosinaura Barros, Silvana Vieira, Regina Sherer, Jussara Oleques. Dirlene Marimon Chiurlei Reis, Iara Reis, Dóris do Sedac, Viviane Demoly, Taiana Azumbuja, Elaine Guimarães, Raul Osório Pinto, Mariângela Bairros, Fábio Blcalr Chacal e outros amigos e conhecidos que iam chegando, não assinando o livro e o banner com cópia ampliada do convite para o ato, o desenho de Pilla e palavras soltas do seu universo cotidiano: livros, amigos, solidariedade, jornalismo,inter, cultura, paixão, PT, bar, música, política, socialismo, cultura, história, vida e amor.
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Ativo, muito cheio de iniciativa, Olívio Dutra iniciou e encerrou o tributo. Primeiro de tudo, brindou. Brindou a Pilla com um martelinho, que os dois gostavam de compartilhar. E foi, mestre de cerimônias improvisado, passando as falas.
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Primeiro a falar, o professor Luiz Osvaldo Leite, docente do Anchieta, depois subordinado ao ex-aluno que se tornou secretário de Cultura e o convidou para dirigir a OSPA, e logo tornado amigo de fé, camarada.
Professor Leite lembrou o exímio latinista que Pilla era no curso clássico. E mesmo seu pendor para o artes teatrais quando sua turma encenou "Quase Ministro", de Machado de Assis, uma das poucas peças teatrais que só tem personagens masculinos - como requeria o colégio nos tempos em que menina não entrava no Anchieta.
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Também veio ao microfone o Biaginho, dono do Restaurante Copacabana, com seu sotaque arrrevesado de oriundi, rememorar seu melhor freguês. Era cliente tão arraigado que quando o Copa se viu obrigado, por determinação legal, a proibir fumantes, escafederam-se os tabagistas e só o Pilla, fiel, ali permaneceu.Gremista furioso, Biaginho não desancava fúria no colorado incandescente Pilla porque este, espertamente, descobrira um amor futebolístico para desaguar um denominador comum: o Juventus, da Itália. Emocionado e cada vez mais dominado pelo sotaque nervoso, Biaginho referiu até à nova morada do cristão anônimo Pilla no céu onde,certamente, espera os amigos. Mas não que não espere minha companhia para muito logo..., aliás, espere para bem depois ... - corrigiu-se Biaginho, provocando risos.
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Minhoca - o Carlos da Ré - preso e torturado nos idos da barbárie da redentora cruel, disse para todos testemunharem que não conheceu ser humano mais maravilhoso que Pilla. Mas entregou o amigo, esperando a cumplicidade e a compreensão dos sobreviventes. Certa vez, com um abcesso que crescia no rosto, Pilla foi convencido a recorrer à ajuda médica tão assustado ficou pela ameaça dos amigos de era visivel que estava produzindo um câncer. Pilla sumiu uma semana, evaporou-se, não deu notícias. Apareceu, lampeiro e exausto, uns sete dias depois. Vocês acham que, se tinha a ameaça de morrer, eu ia gastar minha última semana de vida com vocês? Me dediquei ao álcool e ao sexo!
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Adroaldo Correa lembrou a afamada Banda de K, que saia da Cidade Baixa arrastada por apenas umas 30 pesssoas e ia formando um batalhão carnavalesco enorme quando chegava na Rua República. Pilla ia a frente como general da bandinha de Carnaval, a ópera do terceiro mundo, como ele dizia.
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O irmão de Pilla, Carlos Eduardo, recordou que nas travessuras infantis sempre convocava o mano: - Alemão, vamos jogar bola! Luiz Paulo dizia que ia. E ia muito do devagar; às vezes, chegava o jogo já tinha terminado. E fazia o que o Alemão que tanto se amarrava? - Lia O Capital, acreditem ou não. Em dois ou três anos debulhou toda a obra de Karl Max.
- Este era o meu irmão - definiu Carlos Eduardo.
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Neste tom, Sofia Cavedon depôs dizendo que divide sua vida em AC e DC, isto é, antes de descobrir a Cultura e depois, cultura apresentada por Pilla ao mundo que se abriu com o espetáculo da literatura, da arte, da música, o conhecimento de cultura no qual ninguém batia Pilla. Um dos animadores do seu primeira incursão na urnas para a Câmara de Vereadores, Pilla demarcava: - Teu mandato tem que ser de agitação de idéias.
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Aliás, votou nela nas últimas eleições municipais por pura indicação do Pilla - como fez questão de registrar - o colega de Zero Hora, critico musical dos supimpas, o Juarez Fonseca, a mulher Sonia e a filha Liz. Juarez corrigiu até uma entrevista dada à ZH quandocontribuiu com o obituário de Pilla por pedido de um repórter. Não dissera que Pilla não tinha opinião formada, como escreveu o entrevistador - Eu disse que Pilla era homem que não tinha opinião lacrada sobre tudo. Isto é, ele tinha opinião formada sempre, mas como sabia ouvir e respeitava o interlocutor, ele sempre pensava sobre os argumentos alheios. E, exatamente por isso, até podia mudar de opinião. Juarez dividia com Pilla, no bar épico Porta Larga, doses de lisos. E o prato predileto era o mesmo dos dois: mocotó com vinho Isabel. E o Juarez trouxe na carona da sua manifestação, a assertiva autorizada por Lauro Schimer, diretor daqueles tempos, sentado com o filho Gerson, no café da Usina: - Pilla Vares foi o melhor editor do Caderno de Cultura da ZH.
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Olívio não lembrava quando, precisamente, conheceu Pilla, mas recordava a importância intelectual que ele representou em sua trajetoria política, emprestando-lhe palavras paraexpressar-se melhor as idéias que o estrategista elaborava.
- Pilla era um iluminador de caminhos, um acendedor de lampiões - metaforeou o ex-governador.
Também do futebol, onde ambos bebicavam a mesma paixão clubística, Pilla referendera lições. - Falava sobre a função do coletivo, da participação, da democracia e do protagonismo que se pode aprender com o futebol.
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Raul Pont não se fez de rogado para louvar Pilla. Nas reuniões politicas de antanho, Pilla despontava sempre com outra interpretação.
- Tinha sempre posição diferenciada porque lia tudo, e antes da gente.
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E depois Olívio ainda conduziu o povo à beira do Guaíba, instigando aplausos, palavras de ordem,canções. Cantavam pedaços de samba, entoavam "Para não dizer que não faleidas flores" , o hino oposicionista de Geraldo Vandré, e ensaiaram até o hino do Inter que Pilla, como cansou de se saber aqui, era colorado da cepa. E muitas vivas. Repetidas vivas. Não o improvável 'Pilla vive' da banalização das pichações. Mas, sim, um viva dito em tom forte, de um coro espontâneo, viva ao Pilla. Que se foi daqui, mas vive nas lembranças dessas idéias que sempre defendeu e, sobretudo, praticou.
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Ali no trapiche, à esquerda da Usina para quem olha com as costas voltadas para Porto Alegre, desapegada da pequena multidão que se abraça em torno de Malu e Angelo, airmã Suzana continuava derramando águas do olhar nas águas em tom marrom que o lusco-fusco das 20h30 ia cobrindo de escuridão. Suzana deixava as lágrimas correrem e jogava beijos em direção ao desenho que as cinzas formavam na superfície líquida.
Gilmar Eiltelwein, também voltado para a imagem aquática,se surpreendeu: - Olha, a figura do Pilla se formando na água... Veja ali, não parece seu rosto de óculos? Em breve, entretanto, o anoitecer se impôs definitivo e Pilla Vares se misturou com o Guaíba da sua Porto Alegre para sempre.

Terça-feira, 18 de Novembro de 2008

Tributo ao Pilla Vares nesta quinta

 

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